O fenômeno, conhecido como “Sephora Kids”, transformou rotinas complexas de skincare em uma febre digital. No entanto, o que pode parecer uma brincadeira inocente de autocuidado esconde riscos reais para a saúde física e mental do público infantil.
LEIA TAMBÉM: “Vieram para me matar”: marido de Luana Zucoloto relata momentos de terror em tentativa de assalto no Rio
Pele de criança não é pele de adulto

O uso precoce desses produtos não é apenas desnecessário, mas também pode ser prejudicial. De acordo com a dermatologista Dra. Silvia Soutto Mayor, coordenadora do Departamento de Dermatologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Dermatologia, a pele infantil é mais fina e permeável.
“A absorção desses componentes é muito maior e, portanto, a agressividade e os danos causados também aumentam”, explica.
A especialista alerta que a exposição contínua pode provocar sensibilizações graves e dermatites alérgicas de contato, que podem persistir ao longo da vida. Além disso, muitos cosméticos contêm substâncias classificadas como disruptores endócrinos, que podem interferir no desenvolvimento hormonal infantil.
“Na criança, esse sistema ainda está em formação, e o uso desses produtos pode ocasionar, por exemplo, puberdade precoce”, afirma a médica.
Da criatividade à performance
Se os impactos na pele são visíveis, os efeitos na saúde mental também preocupam especialistas.
Para a psicóloga e neuropsicóloga clínica Elisângela Souza, o foco excessivo na estética pode comprometer o desenvolvimento infantil. “Quando a estética substitui o brincar, há um deslocamento do eixo do desenvolvimento. Em vez de imaginar e criar, a criança passa a performar para ser vista e validada pelo outro”, analisa.
O impacto na autoimagem é direto. Ao reproduzir essas rotinas, crianças podem desenvolver crenças associando aparência à aceitação social.
“A longo prazo, a autoestima deixa de ser multifacetada e passa a depender de um padrão estético, muitas vezes inalcançável”, pontua.
Influência digital e comportamento
Outro fator de atenção é a forma como o conteúdo chega ao público infantil. Diferentemente da publicidade tradicional, muitas crianças acompanham influenciadoras mirins que parecem próximas, como se fossem amigas.
@sparkling_nicole Glow Recipe in Sephora for 8 years ✨ I’ve gotten so much hate… but I’m still going to get all the stuff I love 💖 Because this makes me happy. @Glow Recipe #glowrecipe #glowrecipewatermelonglow #hatersmakemefamous #sephorakids #sephorahaul ♬ original sound – Princess Nicole
Segundo a especialista, esse processo pode ser explicado pela Teoria da Modelagem do Comportamento, em que crianças reproduzem comportamentos de figuras que consideram bem-sucedidas ou pertencentes ao seu grupo de referência.
“Quando a propaganda vem embalada como rotina pessoal ou amizade, a defesa cognitiva praticamente não é ativada. O desejo tende a ser mais impulsivo, fortalecendo a associação entre produto e prazer”, explica.
Qual é a rotina de cuidados ideal?
Para pais e responsáveis, a recomendação é simples: menos é mais.
De acordo com a Dra. Silvia Soutto Mayor, a rotina de cuidados faciais até os 12 anos deve se limitar ao básico:
- Higienização com sabonetes ou loções adequados para a faixa etária;
- Hidratação com produtos infantis, preferencialmente sem fragrância;
- Uso de protetor solar infantil para crianças acima de 6 meses, sempre que houver exposição direta ao sol
Especialistas reforçam que, nessa fase, o foco deve ser a saúde da pele — e não padrões estéticos impulsionados pelas redes sociais.




