A misoginia online é um dos maiores desafios socioculturais e de segurança na era digital do Brasil atual. Recentemente, o país parou para acompanhar o caso de uma mãe que tomou uma atitude extrema: ela fez um “exposed” do próprio filho de 15 anos após descobrir que o jovem mantinha um perfil secreto no TikTok dedicado a publicações de teor profundamente machista.
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A manicure Fernanda Cunha foi alertada por familiares e se deparou com um vídeo do filho afirmando que “Mulher é igual roupa, se não for a preferida, nós emprestamos para os amigos”.
Indignada, ela utilizou a própria rede social para dar uma bronca pública, deixando claro que aquele tipo de visão objetificadora não era o que ele aprendia em casa, e determinou que ele ficasse sem acesso ao celular por tempo indeterminado.
@kn.omidia uma decepção , essa nao ė a educação que eu dou pra ele. #vaiprafyinferno #vaiprofycaramba #foryou #foryoupage #fyppppppppppppppppppppppp ♬ som original – KN.midia
O crescimento assustador do discurso de ódio
Os números comprovam que o comportamento do adolescente não é um caso isolado, mas sim o sintoma de um grave problema estrutural.
Em 2025, os registros de denúncias sobre misoginia online dispararam. Dados da SaferNet Brasil indicam que os crimes de ódio contra mulheres na internet tiveram uma alta de impressionantes 224,9% em apenas um ano

Além disso, um mapeamento realizado pelo Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) revelou que pelo menos 225 mil pessoas integram 85 comunidades abertamente misóginas apenas no aplicativo Telegram.
Entre 2019 e 2025, o volume de conteúdos com esse teor explodiu, crescendo quase 600 vezes
A “machosfera”: entenda onde a radicalização acontece
O ecossistema digital que estimula e naturaliza a misoginia online é comumente conhecido como “machosfera”.
Trata-se de uma rede intrincada de sites, fóruns, canais no YouTube e grupos de aplicativos de mensagens onde jovens se reúnem para consumir conteúdos que exaltam uma suposta superioridade masculina e pregam a subjugação das mulheres.
Dentro dessa rede, destacam-se subculturas como os Incel (celibatários involuntários), os MGTOW (homens seguindo seu próprio caminho), os Pick Up Artists (artistas da sedução) e os seguidores da Red Pill.
Adolescentes, que naturalmente atravessam fases de insegurança social e busca por aceitação, são alvos fáceis. Eles são bombardeados com vídeos que ensinam a tratar as mulheres com desprezo e aplicam táticas de manipulação psicológica para “destruir o ego” feminino.
O jovem repreendido pela mãe viral justificou sua postagem argumentando que estava “só criando conteúdo”, o que demonstra como a ofensa às mulheres foi normalizada como moeda de troca por engajamento e notoriedade entre os pares.
A monetização do ódio contra as mulheres
Um fator que agrava fortemente a disseminação da misoginia online é o seu poder lucrativo. O relatório “Aprenda a evitar ‘esse tipo’ de mulher”, do NetLab da UFRJ, revelou que 80% dos canais misóginos analisados no YouTube utilizam estratégias diretas ou indiretas de monetização.
Influenciadores digitais convertem o ódio em mercadoria, vendendo mentorias, cursos e e-books que prometem ensinar “desenvolvimento pessoal masculino”, mas que, na prática, ensinam táticas de controle coercitivo e abuso psicológico contra parceiras.
Algumas consultorias individuais sobre o tema chegam a custar R$ 1.000,00.
A plataforma lucra com o alto engajamento, perpetuando o ciclo de extremismo e desumanização.
ECA digital e respostas legislativas
Buscando frear a epidemia de ataques digitais, a legislação brasileira passou por duras atualizações. Em 2024, a Lei nº 14.811 tipificou formalmente o cyberbullying como crime, prevendo pena de reclusão de dois a quatro anos para a intimidação sistemática no meio virtual.
Contudo, a mudança mais drástica no controle do acesso dos jovens ocorreu em março de 2026, com a entrada em vigor do ECA Digital (Lei nº 15.211/2025).
A nova legislação exige que as grandes plataformas implementem barreiras de proteção ativas, determinando que:
- Perfis vinculados: Contas de adolescentes menores de 16 anos devem, obrigatoriamente, ser vinculadas ao perfil de um responsável legal.
- Verificação de idade real: As empresas de tecnologia devem adotar mecanismos confiáveis de aferição de idade, como biometria ou identidade digital, sendo expressamente proibida a mera autodeclaração.
- Controle parental reforçado: As plataformas são obrigadas a fornecer ferramentas para que os pais limitem o tempo de uso, restrinjam contatos de adultos não autorizados e bloqueiem algoritmos predatórios e conteúdos extremistas.




