Em entrevista exclusiva ao Jornal Algoritmo, Elu Almeida detalha o processo de destransição, comenta a repercussão nas redes sociais e fala sobre os próximos passos como criador de conteúdo.
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Em seu canal no YouTube, o influenciador — que atualmente se identifica no masculino — compartilhou os motivos que o levaram a tomar essa decisão.
A fim de respeitar a identidade de gênero, começamos com a seguinte pergunta:
Por quais pronomes esta entrevista e o público nas redes sociais devem se referir a você?
“Tenho um respeito enorme pela pauta de identidade e não faria sentido continuar utilizando pronomes femininos enquanto optei por viver com uma imagem masculina. Hoje, utilizo pronomes masculinos e me refiro a mim dessa forma.
Inclusive, acredito que existe uma discussão importante sobre como homens afeminados muitas vezes são tratados no feminino com naturalidade, enquanto pessoas trans ainda são desrespeitadas em relação aos pronomes. Isso, para mim, é uma questão que precisa ser debatida.”
Como você avalia a repercussão da sua história após se tornar pública?
“Quando gravei o vídeo, não imaginei que teria uma repercussão tão grande. Minha intenção era conversar com a minha comunidade, com as pessoas que estão sempre no Instagram perguntando como estou.
O alcance, especialmente no Twitter, causou grande espanto. Confesso que vi pouca coisa, principalmente para preservar a saúde mental. No geral, acredito que alcancei meu objetivo, que era encontrar acolhimento.
Em 2025, vi muitos laços importantes se desfazerem, e o maior medo — o de ficar sozinho no mundo — começou a ganhar forma. Quando decidi voltar, foi na tentativa de preencher esse vazio e afastar esse medo, buscando um lugar onde eu me sinta seguro.”

Você se arrepende de ter exposto algo naquele vídeo?
“Não. Acredito que fui muito responsável com tudo o que compartilhei, tanto comigo quanto com outras pessoas. Sempre tive a convicção de que não preciso expor terceiros, atacar alguém ou gerar ódio para construir uma carreira online. Prefiro ter menos seguidores e uma comunidade saudável.”
Como você descreveria o processo que levou à destransição? Foi gradual ou houve um ponto de ruptura?
“Como disse no vídeo, foi o medo — na verdade, uma soma de medos e inseguranças.
Imagino como uma balança: de um lado, coloquei as alegrias, como a identidade que eu expressava ao mundo. Eu sempre amei ser a Eluá; me olhar no espelho trazia realização.
Do outro lado, coloquei as dores. Nunca esperei que aceitar minha identidade trans fosse fácil, mas percebi que experiências como a rejeição me afetaram muito mais do que poderia prever.
Tenho uma história de vida difícil. Desde criança, fui afastado do convívio social por ser diferente. Já compartilhei mais sobre isso em outros momentos. A série Veneno, especialmente na parte da infância, me emociona profundamente, porque me sinto representado pela dor da rejeição.
Quando tive coragem de mostrar a Eluá ao mundo, recebi muito carinho na internet, mas a vida começou a entrar em colapso em outros aspectos. Fui perdendo coisas importantes ao longo do caminho.
No fim, a balança pesou mais para um lado. Os medos de viver como uma pessoa trans se tornaram maiores do que a disforia ou a alegria de me ver como Eluá.
Não escolhi o caminho que me faz mais feliz; escolhi aquele em que acredito conseguir sobreviver com mais segurança. Talvez isso mude com o tempo, à medida que eu me recupere. A única certeza que tenho hoje é que estou tentando sobreviver mais um dia. Quantos ainda virão, eu não sei.”
“Foi um processo gradual desde a volta para Santa Catarina, em 2024, mas houve, sim, um ponto de ruptura muito doloroso. Prefiro não entrar em detalhes, mas foi o fim de uma relação extremamente importante.
O término aconteceu de forma difícil e acabou sendo associado, de forma indireta, à transição. É uma história complexa, com muitas nuances, mas marcou o encerramento de um ciclo que desestabilizou completamente a saúde mental.
Depois disso, tive alguns meses para processar tudo e reunir forças para tomar uma decisão, tentando recomeçar.”
Você sente que teve apoio suficiente para tomar essa decisão?
“A decisão foi tomada longe das redes sociais, meses antes de tornar isso público. Na prática, aconteceu no final de novembro, quando cortei o cabelo, deixei de usar roupas femininas e parei de aparar os pelos faciais.
Os amigos mais próximos me acolheram, mas, no fundo, sei que não concordavam, porque todos entendem que abandonei quem sou em busca de alguma luz no fim do túnel.
A família conviveu com isso, mas nunca aceitou plenamente a existência da Eluá, então acredito que tenham recebido a decisão com alívio.
Tenho plena consciência de que abandonei quem sou, e isso dói. É uma dor com a qual vou precisar aprender a conviver.”
Você percebeu diferenças concretas na forma como passou a ser tratado?
“É como se eu tivesse entrado em outro mundo. Tudo se tornou mais fácil nesse aspecto, considerando apenas a vivência prática.
Emprego, moradia, novas oportunidades… sim, as diferenças existem — e é triste perceber isso.”
Como está sendo acompanhar os comentários nas redes sociais?
“Escolhi consumir apenas o que me faz bem. Os poucos comentários negativos que surgiram, optei por remover e bloquear. Acredito que esse filtro é uma forma necessária de cuidar da saúde mental.”
A influenciadora Dacota Monteiro saiu em sua defesa nas redes. Você viu?
Gente, apesar da thumb click bait, o que a elu relata no video é muito sério, chegou a dormir em sofá dos outros, anos sem emprego e conseguiu IMEDIATAMENTE quando trocou o nome e as fotos.
— DaCota Monteiro (@ADaCotaMonteiro) March 17, 2026
Muitas pessoas, trans inclusve, caíram no conto da garota dinamarquesa que é só vc… https://t.co/xZqzaiZzXd
“Foi uma grata surpresa. Sempre admirei a Dacota Monteiro, já acompanhava antes do programa.
Inclusive, uma curiosidade: quando entrei no reality, reconheci a risada dela segundos antes de começar e fiquei completamente nervoso, pensando em como iria competir com ela.
Sobre a defesa que ela fez, sou profundamente grato. As colocações foram muito sensíveis e responsáveis. Para mim, isso demonstra maturidade e empatia.
Também deixo minha gratidão à Paula Ferreira e a outras pessoas que trataram minha vivência com respeito.”
Você teme que sua trajetória seja usada politicamente por terceiros?
“Inicialmente, não havia pensado nisso. Com os comentários, percebi que essa possibilidade existe. Ainda assim, não está ao meu alcance controlar esse tipo de desdobramento.
Busquei me posicionar da forma mais responsável possível, deixando claro que não houve influência religiosa ou algo do tipo. Minha intenção foi abrir um espaço de reflexão sobre a necessidade de dignidade para pessoas trans viverem com menos dor.”
Elu Almeida fala sobre o Corrida das Blogueiras
O que a experiência no reality significou na sua vida?
“Tenho certo receio em falar sobre isso porque, sempre que me manifestei sobre o programa, uma parte do público reagiu de forma muito agressiva.
Ainda assim, sempre exaltei e demonstrei gratidão pela oportunidade, independentemente do resultado.
O que tornou a experiência difícil foi o ódio gratuito que recebi, muitas vezes baseado em informações distorcidas. Isso me fez querer me afastar.
Sim, foi no programa que apresentei publicamente minha identidade feminina de forma completa pela primeira vez, embora esse processo já viesse acontecendo internamente desde 2019.”
O programa abriu portas ou criou expectativas irreais?
“Foi uma experiência agridoce. Ao mesmo tempo em que representou a realização de um sonho, também trouxe feridas.
Não considero justo atribuir minhas expectativas ao programa. Todas foram responsabilidade minha.
Quanto às oportunidades, sou grato pela comunidade que construí. De alguma forma, considero que alcancei um tipo de sucesso, principalmente por ter criado um espaço de acolhimento. E, sem dúvida, o programa teve um papel importante nisso.”
Quais são seus próximos passos?
“Estou em um processo intenso de recomeço e ainda descobrindo o que será da minha vida daqui para frente. Quero continuar construindo laços saudáveis e uma comunidade respeitosa e acolhedora.
Convido as pessoas a descobrirem comigo os próximos passos dessa jornada.
Quanto aos aprendizados, estou entendendo que a vida é feita de contrastes. Durante muito tempo, foquei apenas na dor. Agora, estou aprendendo a valorizar cada pequeno momento de felicidade.
Não sei por quanto tempo estarei aqui, então decidi não projetar a longo prazo. Escolhi viver um dia de cada vez.”
Como já foi cantado por Pitty: “não deixe nada para semana que vem — porque semana que vem pode não chegar”.
A entrevista com Elu Almeida revela não apenas uma mudança de trajetória, mas também as complexidades emocionais e sociais que envolvem decisões sobre identidade e pertencimento. Em meio a incertezas e recomeços, o relato reforça a importância do acolhimento, do respeito e da escuta — elementos essenciais para que histórias como essa sejam compreendidas em toda a sua profundidade.




