terça-feira, março 3, 2026

Representatividade vs. Viralização: o choque de transformação no Carnaval 2026

Ascensão das influenciadoras digitais em postos de destaque redesenha a hierarquia das escolas de samba

Leitura obrigatória

André Pereira
André Pereira
Apaixonado por música, entretenimento, esportes, rádio, televisão e várias coisas. Além dessas paixões, gosto de aprender um pouquinho sobre várias coisas ao mesmo tempo e contar e compartilhar histórias

Por Josyvania Monteiro

O Carnaval brasileiro, outrora forjado no chão de terra das comunidades e em suas representações de pertencimento, atravessa hoje uma transformação que desloca o foco do coletivo para o individual.

LEIA TAMBÉM: 5 influenciadores gamers para acompanhar e se divertir

Se antigamente a consagração de um pavilhão dependia da ancestralidade e do domínio técnico do samba, a era da hipermidiatização impôs uma nova métrica de valor: o alcance digital.

Hoje, ganham espaço as câmeras de celular e o capital simbólico dos influenciadores, transformando a passarela do samba em um imenso estúdio de produção de conteúdo, onde tradição e algoritmo travam um duelo inédito pelo protagonismo do espetáculo carnavalesco.

Se, em décadas passadas, a tensão se dava pela “invasão” das atrizes de TV no posto de rainhas de bateria, o próximo ciclo carnavalesco sinaliza uma ruptura ainda mais profunda: a influencerização definitiva do desfile. A escolha de nomes como Virginia Fonseca pela Grande Rio não é um fato isolado, mas o ápice de uma lógica que substitui o capital cultural pelo capital de engajamento.

Essa transição impõe reflexões críticas que vão além da superfície. O primeiro grande embate ocorre na estética da performance. Enquanto o desfile de uma escola de samba é projetado para a continuidade e para a visão panorâmica da avenida, a lógica do influenciador é a do fragmento. O corpo da musa, antes dedicado a saudar a arquibancada e dialogar com os ritmistas, agora performa para o “corte” perfeito.

Além disso, assistimos a uma padronização visual ditada pelo algoritmo. O Carnaval, historicamente um espaço de liberdade e exagero artístico, começa a sofrer uma “algoritmização”. As fantasias e intervenções estéticas das novas musas tendem a seguir filtros de beleza e tendências do Instagram. Ocorre uma homogeneização: a rainha deixa de ser uma personificação do enredo para se tornar uma extensão de sua própria marca pessoal, onde deveria haver uma entidade ou uma história.

Essa mudança de perfil redefine a própria hierarquia de mérito dentro das escolas. Quando o critério de escolha é o alcance digital, o “samba no pé” é rebaixado a um detalhe técnico irrelevante. Para as alas de passistas e para a comunidade, a mensagem é desoladora: o topo da pirâmide não pertence mais àquela que domina a arte do samba, mas àquela que detém o maior número de seguidores.

Por fim, há o risco do esvaziamento afetivo. A relação da comunidade com seu pavilhão é de devoção; a relação do influenciador com a escola é, frequentemente, transacional. Trata-se de um “job” sazonal que termina na Quarta-feira de Cinzas. Ao tratar a Sapucaí como um mero “outdoor” de engajamento, corre-se o risco de transformar o espetáculo coletivo em um subproduto do mercado publicitário, onde o samba, a bateria e o enredo viram apenas ruído de fundo para a próxima grande métrica de alcance.

- Advertisement -spot_img

Mais artigos

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

- Advertisement -spot_img

Mais recente