O feed do Instagram, que antes era preenchido por atualizações de exames e celebrações de conquistas pessoais, transformou-se em um imenso memorial. O falecimento de figuras públicas sempre gerou mobilização, mas o caso da influenciadora Isabel Veloso revela uma nova camada do comportamento social.
A jornada da jovem, que lutou contra o câncer desde os 15 anos e compartilhava a rotina em cuidados paliativos, não foi apenas acompanhada, foi vivida por milhares de brasileiros. O casamento, o tratamento, a gravidez… todos esses momentos compartilhados fizeram com que Isabel construísse com os seguidores um vínculo que desafia a distância física e expõe um fenômeno crescente na era hiperconectada: o luto digital coletivo. Por que a perda de alguém que nunca nos viu pode doer tanto quanto a de um amigo próximo?
Segundo a Dra. Maria Rita Zoéga Soares, psicóloga clínica, diretora da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP) e professora sênior do Programa de Pós-graduação em Análise do Comportamento da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a perda é sentida como real porque o cérebro não faz distinção clara entre o vínculo físico e o virtual quando há exposição constante, mesmo que a relação tenha sido estabelecida de forma digital e unilateral.
Diferentemente dos ídolos de gerações passadas, que mantinham certa distância, os influenciadores ocupam espaço no cotidiano. “Ver alguém todos os dias pode ativar os mesmos processos de uma relação real, com compartilhamento de experiências e sentimentos, além de uma sensação de intimidade e familiaridade. A perda é vivida de maneira concreta e se manifesta na falta que faz na rotina pessoal”, afirma a psicóloga.
Apesar da legitimidade desse sofrimento, é necessário estabelecer limites saudáveis no consumo de conteúdos sobre terminalidade. A Dra. Maria Rita ressalta que é fundamental validar o que se sente, sem permitir que o luto virtual paralise a rotina ou substitua as conexões presenciais.
“É importante avaliar se o sofrimento está proporcional e se o indivíduo consegue seguir com as atividades importantes, apesar da situação”, orienta.
O luto por Isabel Veloso, portanto, deixa uma lição que vai além das telas: a importância de honrar a finitude alheia como reflexão sobre a própria existência, sem esquecer de cultivar os vínculos reais que sustentam a vida fora das redes sociais.




